quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

NÃO TE DESPEDES DO RAPAZ ?


-Não te despedes do rapaz?

-Já há muito tempo que ando a despedir-me dele, ouvi em voz morta de angústia.
-Ó homem nem parece teu...
- Mulher, isto é uma vida danada, o outro já na Guiné, agora este de abalada para Angola!
-Foi assim que quiseste, os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
-Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo na incerteza de dias sem sol na alma, nem a falta de notícias durante tantos anos.
-Nossa senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
-Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta da rua bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua...

-António Júlio, vem comer, as sopas já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local, no parapeito da janela da cozinha que dava para a restolha do Calaia. Desde os tempos do liceu que era assim, dali via os lameiros onde, depois das aulas, jogávamos à bola e por lá também passava o caminho para o rio.
Em cima do aparador, o velho rádio dava som a “tu te reconnaitras” na voz da luso-luxemburguesa Anne Marie David, ainda na moda, pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.

Vi-o descer a restolha, cana de pesca na mão direita, rosto a contar os passos, em cadência de desalento. Baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá, não fez qualquer sinal, simplesmente parou para olhar.
Eu sei pai, que não gostavas que te víssemos chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício ,que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante, tu um pai cheio de ideais, cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de Pátria e liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o combóio partisse de Bragança, já estarias em casa.
Continuou a afastar-se, agora num passo lento carregado de tristeza e emoção, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Ricafé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão de casa banhada em lágrimas. O carteiro, na pessoa do “velho” Conhés tirava da sacola um aerograma.
-Cá está mais um D. Beatriz, vem da Guiné.
A ansiedade apoderou-se de ambos, com a mão trémula abri e comecei a ler.
O Júlio já foi para Angola? - Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele!
Irmão, porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias!...

(aconteceu há 45 anos)
Jcorredeira
In”fragmentos de memórias”

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 1ª./72 e BREVETAMENTO DO P4/71


JURAMENTO DE BANDEIRA E ENTREGA DE DIPLOMAS
B.A. Nº. 2 – OTA – MAIO/1972
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 1/72

Presidida pelo Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, realizou-se na Base Aérea nº. 2, na Ota, a cerimónia do Juramento de Bandeira dos cursos de oficiais milicianos pilotos aviadores, oficiais milicianos técnicos, sargentos milicianos pilotos e soldados alunos especialistas da Escola de Instrução de recrutas 1/72.
Presentes, também, o vice-chefe e o subchefe do Estado Maior da Força Aérea, general Armando Mera e brigadeiro Braz de Oliveira; o Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Diogo Neto; O Presidente da Câmara Municipal de Alenquer e muitos oficiais comantes de Unidades da Força Aérea.
Depois de passar revista à guarda de honra, o Secretário de Estado da Aeronáutica e as restantes individualidades presentes dirigiram-se para a tribuna.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Base Aérea nº. 2, coronel piloto aviador Brochado de Miranda, cujas palavras que noutro local inserimos.
A preceder o acto de juramento, o comandante do Grupo de Instrução, tenente-coronel Raul Tomás, leu uma exortação dirigida aos soldados cadetes e aos soldados recrutas, que terminou com as seguintes palavras:
“O amor à Pátria é a primeira virtude de um homem civilizado, e para ti, militar, essa virtude é um imperativo de consciência, um princípio indefectível de lealdade, perante a defesa de um povo, das suas instituições e do bem-estar das gerações que se sucedem na eternidade dos tempos.
Glória aos heróis, paz aos mortos e respeito pelos vivos. Que o seu exemplo seja uma estrela que ilumine o caminho de um Portugal eterno, na difícil hora que o Mundo atravessa. E que todos nós, se, marcado pelos chefes responsáveis, vier o dia em que é também necessário marcar atitudes de sacrifício, estejamos com Eles preparados e prontos a actuar respondendo sem hesitação: Presente. Aqui é Portugal.”

Finda a leitura da exortação procedeu-se ao acto do juramento, cuja fórmula foi lida pelo tenente-coronel Raul Tomás.
Seguiu-se a entrega de diplomas e prémios feita pelo Secretário de Estado da Aeronáutica e pelos vice-chefe e subchefe do Estado Maior da Força Aérea, finda a qual se realizaram demonstrações de manejo de arma a pé firme e em marcha.
Antes do desfile perante a tribuna que se encerraram as cerimónias, a Banda de Música da Força Aérea, sob a direcção do capitão Silvério de Campos, exibiu-se em alguns números que irá apresentar em Agosto próximo no Festival de Bandas Militares dos países da NATO, na Alemanha, em representação de Portugal.

ALOCUÇÃO PROFERIDA PELO COMANDANTE DA UNIDADE

Estamos uma vez mais preparados para recolher palavras solenes e admirar posturas altivas e aprumadas de um grupo de rapazes que voluntariamente se decidiu a prestar serviço na Força Aérea.
A instrução militar básica que receberam nas últimas semanas culmina hoje com as formalidades que acabamos de iniciar e que se destaca o acto do Juramento de Bandeira.
A repetição periódica de tantas idênticas cerimónias, enquadradas no mesmo cenário, pode sugerir o desvanecimento do seu alto significado. Mas só aparentemente, pois que o soldado recruta que hoje está no centro das nossas atenções tem o direito de considerar esta cerimónia como maior que todas as outras e até de a considerar única. É que esta é uma hora chave na vida de cada um. Uma hora de transição: de adolescente com quem se vinha usando de benevolência complacente para homem consciente e responsável.
Dentro de momentos estará perante todos vós a Bandeira Nacional, emblema sagrado, expressão máxima da alma de um povo livre e soberano, eloquente síntese de feitos heroicos e símbolo de esperança e de inquebrantável tenacidade e coragem.
É perante esta Bandeira que o soldado recruta vai em consciência afirmar a sua dedicação à Pátria e às suas instituições e comprometer-se a lutar por uma causa que a todos sobreleva e que é a defesa do património físico e moral da Nação.

A sua participação na luta traduzir-se-á, não tanto pela intervenção directa em acções de combate, mas, principalmente e para já, buscando a cultura geral e técnica que conduza ao aperfeiçoamento individual e de que resulte aptidão e eficiência na produção de trabalho útil; opondo-se com a verdade a argumentos especiosos desmoralizadores; contrariando a apatia, o desânimo, a descrença; colaborando com entusiasmo e com fervor patriótico.
Em resumo e usando palavras do Papa Paulo VI, o soldado deve dar à vida da Nação a que pertence “a energia, a fidelidade e o patriotismo de que o serviço militar é escola nobre e severa”.

A presença entre nós de Sua Excelência o Secretário de Estado da Aeronáutica, a quem saúdo em meu nome e de todo o pessoal que presta serviço na BA2, seria sempre um acontecimento de relevo pelo que significa de interesse pelo nossa actividade e de incentivo ao nosso esforço. No dia de hoje é todavia mais do que isso, pois terá projecção incisiva no espírito de cada recruta.
Também nos é particularmente grata a comparência a este acto de outras altas entidades oficiais, civis e militares, responsáveis por vários níveis de direcção ou chefia, a quem igualmente saúdo e afirmo a nossa muita satisfação pela honra de os receber nesta casa.
São bem-vindos os pais, outros familiares e demais convidados dos soldados que juram Bandeira. Além do colorido e calor humano com que enriquecem a cerimónia, serão também testemunhas válidas de um Juramento cuja quebra equivaleria à desonra de quem o profere. Jamais o soldado recruta poderá esquecer que os seus entes mais queridos e amigos mais dedicados o ouviram pronunciar a fórmula categórica que o vincula a mais amplas responsabilidades que vão desde o engrandecer a Pátria pelo seu trabalho profícuo até oferecer a vida na defesa dos seus direitos sagrados e honrosa sobrevivência.
Integrada também nesta cerimónia, temos ainda a oportunidade de proceder à entrega de diplomas a soldados alunos que completaram cursos de várias especialidades e de prémios aos que mais se distinguiram, em actividades de cultura intelectual e física-militar.
Quanto aos primeiros, a satisfação de terem completado o seu curso supera bem as canseiras e preocupações com que ultrapassaram as dificuldades que porventura tenham encontrado.

Nas Unidades onde serão colocados, primeiro na Metrópole e depois no Ultramar, vão aplicar os conhecimentos adquiridos, embora não possam esquecer que o muito que já sabem é só uma base de partida.
A estabilização dos conhecimentos adquiridos e a integração de mais ricos elementos virão com a prática, seguindo o conselho e a orientação daqueles que mais sabem, mas não deixando, todavia, perder o hábito de folhear os compêndios da ciência e da técnica, a fim de ascenderem continuadamente a um nível de cultura mais elevado.
De facto só é verdadeiramente um militar aquele que assume uma atitude mental permanente orientada no sentido do aperfeiçoamento de forma a que quando chegue a sua vez de desempenhar cargos de responsabilidade – e esse tempo chegará, na vida militar ou civil – seja idóneo para ocupar o seu lugar com dignidade.
Quanto àqueles que se distinguiram já e recebem hoje, por intermédio de um simbólico prémio, a manifestação da nossa simpatia e admiração, nada mais há a dizer-lhes senão que continuem, pois nos parece terem encontrado o verdadeiro caminho de bem servir e Grei e a si próprios.



Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 157 – MAIO DE 1972
           


Até breve                                                                                   
O amigo



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

EVACUAÇÕES EXÓTICAS

Duas evacuações exóticas
Às voltas com as minhas memórias como piloto da Força Aérea (Fur.Mil.Pil.), lembrei-me de um episódio relacionado com o Alto Cuíto.
Certo dia, estava de passagem pelo Luso, recebi instruções para me meter num DO-27 e ir ao Alto Cuíto fazer a evacuação urgente de um ferido.
Gonçalo de Carvalho na pista do Alto Cuito

As condições atmosféricas não eram as melhores, o tempo estava muito coberto, mas mesmo assim meti-me a caminho acompanhado, como habitualmente, por um mecânico.
Durante a viagem a nebulosidade foi aumentando e às tantas vejo-me no meio de nuvens e completamente perdido, sem saber qual a minha posição. Aqueles aviões não estavam preparados para fazer navegação por instrumentos e, além disso, não existiam ajudas rádio que nos valessem.
Fiz 180º e meti um determinado rumo para norte, guiando-me pelos instrumentos, até chegar à linha-férrea do Caminho-de-ferro de Benguela. Depois fui até ao Luso e, sem ali aterrar, voltei a apontar ao rumo do Alto Cuíto. Desta vez cheguei ao destino e aterrei sem problemas.
Então foi a surpresa!
Na pista, à espera do DO, estava um soldado que me disse ser ele o ferido! Tinha sido atingido por um tiro acidental num dedo! Pensei para mim (não sei se o disse em voz alta a alguém na altura) "mas que raio de urgência é esta para uma evacuação"!
E pronto... lá levei o "ferido" para o Luso, numa viagem sem incidentes.

Estas situações aconteciam por vezes.
Um dia, por exemplo, saio de Gago Coutinho para uma evacuação urgente de Ninda. A distância é curta... em meia hora estava lá e... para grande espanto meu, à beira da pista, sentado numa mala, estava um soldado à espera. 
Gonçalo de Carvalho em Ninda

Ele era o "evacuado urgente"... que depois me disse que só queria ir para Gago Coutinho depressa para apanhar o Noratlas para poder chegar a Luanda a tempo de ir de férias ao "puto" (o termo saudosista com que nos referíamos a Portugal continental), e que o capitão da companhia lhe tinha feito o favor de permitir o envio de um rádio a pedir a evacuação.
Enfim... são histórias de tempos que já lá vão.

P.S. - “Puto” Em linguagem “calão” designava o Portugal europeu à beira mar plantado.




quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O VELHINHO C-130 HÉRCULES E O NOVÍSSIMO KC-390


Na sequência da opinião pessoal várias vezes aqui manifestada, o Governo decidiu em 8 de Junho de 2017, avançar para a compra de cinco aeronaves KC-390,com mais uma de opção.
Tal operação, que se adivinhava inadiável, prende-se com o fim de ciclo dos velhinhos e musculados C-130 hércules.
A aquisição do KC-390 contempla também um simulador de voo (FULLFIGHT,SIMULADOR CATD),cuja instalação e operação terá lugar em Portugal.
Esta nova aeronave para além dos sistemas propulsores diferentes do hércules (dois motores Turbofan V 2500), permite configurações de transporte aéreo táctico, lançamento de tropas e cargas, reabastecimento aéreo a outras aeronaves, busca e resgate, tendo sobretudo a valência de combate a fogos florestais.

A decisão governamental prende-se também com a importância estratégica que a indústria aeronáutica representa actualmente no nosso País.
Portugal está envolvido no projecto KC-390 através do CEIIA (desenvolvimento e testes),bem como das unidades da EMBRAER no País, a OGMA em Alverca e as fábricas de Évora, que visam a construção de componentes.
Dentro de três meses o grupo de trabalho constituído para o efeito, apresentará resultados, que naturalmente incluem a sustentação logística, configurações técnicas e operacionais, naturalmente definidas pela Força Aérea Portuguesa.
Em jeito de conclusão e tendo em conta a quase certa utilização da Base Aérea Nº 6 Montijo, como o segundo Aeroporto de Lisboa, acredito que num tempo não muito distante as duas esquadras de transporte ali sediadas a 501 «Os bisontes», a 502 os «Elefantes», regressarão com os C-295, os C-130H e depois com os KC390, ao coração do Ribatejo à antiga BASE AÉREA Nº3 em Tancos.



Tal regresso não constitui qualquer polémica, tendo em conta a existência do Polígono militar de Tancos, onde se encontram estacionadas as melhores e maiores valências das nossas Forças Armadas em cujas missões os meios aéreos são indispensáveis.
Pessoalmente fico confortado, pois nunca consegui compreender como foi possível desactivar em termos aeronáuticos, aquela extraordinária Unidade, que bem conheço e tive o privilégio de servir durante mais de vinte anos.

Por:







(Ten.Coronel na reforma)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O FONSECA

O Fonseca nas mensagens de Natal da RTP, em 1968



Bem, agora trouxeram-me aqui a foto do meu discípulo Fonseca, o rapaz mais inteligente que conheci. 
Quando chegou ao AB4, muito franzino e pequeno, soldado atirador, veio apresentar-se, tive pena dele e arranjei a que fosse o nosso Ordenança. Sabia ler e escrever mal, segunda classe da Primária, no entanto, revelou-se no dia em que se sentou ao lado de um rapaz que estava a estudar para ir a Malange fazer exame, e após umas noitadas ali no Comando, disse que afinal não era difícil essa coisa de estudar. 
O Padre Pereira passou a dar-lhe lições e em dois meses fez a quarta e a admissão ao Liceu, em pouco mais de um ano fez o Segundo e o Quinto, e em Malange, de uns poucos somente passaram dois, ele foi um deles. 
Quando me vim embora já ele tinha trabalho assegurado no escritório do Pereira Rodrigues, que era também o dono do Hotel. 
Era natural de um lugar na zona de Mirandela, viviam de contrabando, e ele costumava dizer que Cristo não passou por ali, nem a pé, nem de bicicleta, só se fosse de burro, porque os burros eram o meio de transporte e não caiam! 
Recordar também é viver!
Somente mais uma do "Fonsequinha", como eu o tratava.
Quando vinha algum soldado para se apresentar, passámos a entregar a tarefa ao Fonseca, que era um espectáculo nas perguntas. Pequeno, com um sorriso matreiro, olhando como quem está inspeccionando a farda e a aparência, começava o interrogatório e nós ficávamos à espreita. 
A parte mais fantástica foi a seguinte: (não sei se alguém se recordará)  a um Soldado da Policia Aérea de seu nome António Olho Azul Rosa, o Fonseca depois de todas as perguntas, todas elas desnecessárias, em silêncio olhou o rapaz, olhou a guia, e sai-se assim: - bem, isto não está conforme, está errado, isto não é uma brincadeira (nós por detrás das portas, ainda não havia balcão, quase que nos mijávamos a rir) e impávido e sereno, continuava a olhar para a guia e para a cara do rapaz, que disse: - foi o que me deram, está ai tudo!
Pois, mas aqui diz Olho Azul Rosa e tu tens os olhos castanhos! Já não aguentámos mais!


Em vídeo de mensagens de Natal de 1968 no Ex-FAPs do AB4




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ZÉ MARIA, O 47 (Um ex-combatente)


Caminha, triste, pelas ruas da cidade grande, solitário, sem rumo.
Olhos postos no chão, como se tivesse medo de encontrar - (quem sabe ?) - algum antigo camarada de armas.Segue, lentamente, embrulhado naquele sobretudo que já fora de cor cinzenta, oferecido naquele Abrigo, onde todas as noites lhe dão uma sopa quente, um pão e fruta. Onde ele come na tal mesa do canto, sempre sozinho, sem falar com ninguém. Onde não ouve ninguém a não ser os seus pensamentos.
Caminha. Sapatos arrastando pelo chão, castigados pelo peso da tristeza e da desilusão. Vai, "enfiado" numas calças demasiado largas para o seu corpo, já franzino. A barba, grande, grisalha, protege-o das noites frias e compridas, tão compridas...
É o ZÉ MARIA. Era o 47 na tropa.
Continua a andar.
E de tudo se lembra:
A sua terrinha, tão longe, onde nasceu, onde foi feliz, e para onde tem vergonha de regressar. Com medo que dele "façam pouco", com medo que o recusem, como aliás, lhe fazem nesta cidade grande, tão grande, onde ninguém conhece ninguém.
Lembra-se da mata, lá em África, dessa mata que ficava tão longe de tudo.
Dos tiros, dos ataques dos "Turras", do medo, da fome e da sede, das febres...
Lembra-se agora daquela negra do Kimbo, a Maria Kivunda, que o fazia feliz, e de tudo o fazia esquecer nas noites em que a chuva batia forte sobre a palhota...
Continua a pensar e a caminhar pelas ruas da cidade grande, dessa cidade que não lhe dá valor nem aos seus antigos camaradas de armas. Estão todos esquecidos.
Essa cidade que rapidamente tudo esqueceu. Agora tudo é tão diferente, todas as pessoas são agora tão diferentes...
Lembra-se do " SANTARÉM", do ANDRADE, do "PILHAS", do "MATOSINHOS", do 550, que regressaram de lá, das matas, enfiados em sacos pretos e com um simples pedaço de cartão amarelado no dedo grande de um dos pés. Com um número, o número de cada um deles.
Um número. Foi o que eles passaram a ser.
Um simples número.
Recorda também o piloto Martins e todos os camaradas que caíram, juntamente com o Héli em que voavam, abatidos na zona dos Dembos.

Caminha. Pensa, pensa, pensa. Sofre.
Como tantos, tantos como ele, é um ignorado por esta Nação que os enviava para lá, e que lhes dizia:
"PARA ANGOLA E EM FORÇA !!! "
Em força!, (pensa)
Que força?
A força de ter deixado seus pais, sozinhos, amanhando a terra dura, sol após sol ?!
A força de ter deixado a sua irmã, grávida do caixeiro viajante que por lá passava de vez em quando, tendo-lhe "enchido " a barriga para depois desaparecer e nunca mais voltar ?!
A força que tantos camaradas tiveram que ter para deixar filhos pequeninos, ou mães viúvas ?!
A força de terem que deixar filhos por criar?!
"Força"! - Diziam "eles", os tais que cá ficavam, sentados em gabinetes cheios de alcatifas mais confortáveis e macias do que o sobretudo que o tapa agora.
Nisto:...
Espera!!!
Que foi isto?!
Alguém passou por ele deixando no ar um perfume bem seu conhecido de outrora...
Sim...O perfume do After Shave que o tal 1º. Sargento lá usava todos os dias!
ZE MARIA vira-se para trás.
Reconhece-o!
É ele! - O 1º. Sargento Serra !!!!
Esse mesmo, que, a ele e aos seus camaradas tornou a vida num inferno, lá em ÁFRICA !!
Aquele vaidoso que até lhes retirava as cartas que vinham no SPM !!
Aquele mesmo a quem o ZE MARIA e os seus camaradas juraram matar um dia.
Lá ia ele, bem vestido, perfumado, bem acompanhado.
ZE MARIA fez ainda um gesto de voltar para trás, para lhe dizer que era o 47, para ajustar contas antigas.Deu ainda três passos, mas... parou.
BÁ !! - Mas, vinganças? Agora? Não !!
ZE MARIA tinha feito as pazes com o passado, consigo mesmo, embora as mágoas nunca o deixem.
Tenta até fazer as pazes com o mundo que o rodeia

Continua a caminhar.
Segue agora por uma rua comprida, larga, cheia de montras já iluminadas com luzes de Natal.
"Está perto este Natal," pensa, melancólico.
"Faltam só algumas semanas "...
Natal, de quando lhe darão, no tal ABRIGO, comida reforçada, onde haverá mais sorrisos a enganar as lágrimas, mais gargalhadas a enganar os choros, mais fingida felicidade a enganar o grito prestes a saltar da boca, da alma, de bem de dentro de cada um dos seus companheiros "SEM ABRIGO".
Ao ZÉ MARIA, o 47, vale-lhe, de vez em quando aquela rameira velha, naquele sótão também velho, onde ele, depois de subir as escadas também de madeira velha e "rabugenta", ali encontra um pouco de carinho, um pouco de aconchego.
Sem pagar.
Sem ter que pagar.

Continua a caminhar.
A tropa, sempre a tropa, os camaradas mortos em combate, sempre a povoarem-lhe a cabeça!!!
As recordações daquela guerra que deu em nada, a não ser o envelhecimento precoce de cada um deles, vidas alteradas, e mortes, tantas mortes.
"Para quê ?!"
"Para quê ?! "
"Porquê ?!"
Tapa-se agora melhor no velho sobretudo.
O ABRIGO está já ali à sua frente.
Entra, e como sempre dirige-se à tal mesa, a do canto.
Já o espera um prato de sopa quente, um pão, uma maçã, e a solidão.
Senta-se.
Olhos na comida, pensamentos longe: 
Na sua aldeia.
E em ÁFRICA.
Nessa ÁFRICA que lhe roubou a juventude.
E, nesta Nação que se esqueceu dele.
Dele de tantos, tantos, tantos...

Sai do ABRIGO.
Já é noite "fechada".
Está frio. Aconchega-se ainda mais no sobretudo que já fora de cor cinzenta.
Vai agora com passo apressado, pois não vê chegada a hora de retornar ao "seu recanto", naquele vão de escadas e onde o espera o seu melhor amigo, o "PIROLITO", desejando do dono uma simples festa no pelo, ou um mimo, guardado como sempre no bolso fundo daquele sobretudo pesado, e outrora, cinzento.
O tal mimo que o 47 guarda para o "PIROLITO", o seu único amigo.
Como sempre.

Conto de minha autoria(de ficção ?), dedicado a todos os Ex.Combatentes da Guerra do Ultramar.
O ZÉ MARIA, 0 Nº 47, podia ser qualquer um de nós.
E, na verdade, quantos ZÉs MARIAs, quantos 47s, anónimos, não andarão por aí? Esquecidos ?

Conto inédito, a editar em livro um dia.
Autor: AHV ESGAIO - FAP - 551/67
Comissão em ANGOLA  69-71.




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CADA ESPECIALIDADE, CADA TAREFA…

Em dia de serviço no AB4 - foto de Fernando Bastos


A minha, lembrar-se-ão os especialistas de meteorologia, era recolher dados no abrigo
foto de Afonso Palma
“dos 
termómetros”, fazer e transmitir observações do tempo, e passar as sinopses para os mapas, para depois se definirem as isóbaras.
De 3 em 3 horas, lá íamos nós, de dia ou de noite, (com bom tempo ou borrasca de gritar), anotar diligentemente os vários termómetroshigrómetro, pluviómetro, e mais não sei quantos “ómetros”.
Não sei como é que não adoeci, a ir de bicicleta até ao abrigo meteorológico lá longe junto à pista, em pleno inverno, 2 ou 3 graus às vezes, e debaixo de cargas de água. 
Depois de voltar de Angola colocaram-me primeiro nas Lajes e por fim, de volta à BA6-Montijo (já lá tinha estado em 69 e 70).
Das Lajes, BA4, retenho várias memórias.
- O trabalho na secção de meteorologia, lado a lado com um meteorologista civil e outro americano. Os companheiros "borda d'agua" americanos tinham muitas vezes os pé colocados na mesa do estirador, e uma caneca de café, uma verdadeira "água de lavar loiça", ou uma coca-cola (que ainda não havia em Portugal...o Toino de Santa Comba, não deixava!)
- O meu olhar embasbacado, na primeira vez que lá vi aterrar um gigante C5 Galaxy, é verdadeiramente monstruoso, custa a acreditar que aquilo voe.
BA4 Lajes - foto Ufo

- Aquando da crise de 73, e da ponte aérea americana para o médio Oriente, (Guerra do Yom Kippur) a placa da BA4, nas Lages, habitualmente uma enorme e pacata superfície com meia dúzia de aviões, encheu-se de aviões de combate F-16 e de grandes jactos de abastecimento de combustível em vôo C-135, basicamente um Boeing 707 adaptado (como eram abastecedoras dos F-16, nós chamávamos-lhes as "vacas leiteiras"), o movimento de aterragem e descolagem era muito intenso, e viveu-se ali um ambiente tenso e nervoso de pré-guerra. .

Por:

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO

Chilombo - 1970 - Rui Jofre na evacuação do fuzo Valdemar, ferido por rebentamento de mina - foto de João Leitão Rodrigues


Tomamos a liberdade de transcrever excertos de uma "conversa" no FB, entre dois Enfermeiros Fusos, que fizeram comissão no Chilombo, José Luis Silva e João Leitão Rodrigues.

Decorria o ano de 1971, quando numa patrulha em botes navegando no Zambeze, a caminho da Lumbala, são violentamente atacados pelo IN. 
João Leitão Rodrigues e Rui Jofre,
 no Chilombo
Sózinho e sem qualquer outro apoio nos primeiros socorros, José Luís Silva consegue salvar de morte certa dois camaradas do seu pelotão, gravemente feridos.
Diz João Luís Silva:
Todos imaginam o quanto doloroso é escrever, ou falar, destas tristes recordações.
Num país que esqueceu os seus melhores filhos, nunca será demais recordar e homenagear os nosso Bravos e os nossos Heróis.
Camarada João Leitão, é com duas lágrimas rebeldes a rolarem pela minha face, que te envio o meu abraço fraterno e a minha homenagem, por saber que ambos partilhamos esse sentimento indescritível do dever cumprido ao salvar vidas de camaradas nossos.
Não posso terminar este pequeno apontamento de guerra, sem prestar homenagem a mais um herói desconhecido que me ajudou a salvar esses dois camaradas.
Foi ele um 1º. Sarg. piloto dos hélis (já completamente apanhado pelo síndroma da guerra), que ao cair da noite e ainda no ar, captou o SOS do nosso telegrafista e foi dos céus do Cazombo até à Lumbala Nova, já noite fechada e com a pista iluminada por tochas, fazer a evacuação dos nossos camaradas.
E, jamais esquecerei as palavras simples desse camarada piloto e herói desconhecido: "prefiro morrer por vocês do que deixá-los morrer aqui"!
Gostava, antes de morrer, ainda poder encontrar este Homem.

Pois bem, viemos a apurar entretanto, em conversa com João Leitão Rodrigues, que o piloto referenciado neste relato, era o nosso saudoso Rui Jofre.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

HELICANHÃO DE ALTO RISCO, NO ALTO CUITO

Heli canhão dos "primos" SAAF

Penso que agora, tantos anos passados, não haverá problema algum em contar esta história real, que se passou comigo.
Terá sido na vasta operação Zumbo 3H (
https://www.youtube.com/watch?v=0fWrFCdXmwI&t=156s), que se desenvolveu em toda a área do Batalhão e neste caso de certeza numa operação efectuada a partir do Alto do Cuito, na qual as nossas tropas foram helitransportadas para perto da zona de intervenção.
O meu pelotão não participou nessa operação onde foram utilizados como meio de transporte para os lançamento das nossa tropas, helicópteros dos "Primos", designação dada aos nossos amigos sul - africanos (SAAF), que montaram base por uns dias no Alto do Cuíto.
Em conversa com o Comandante do agrupamento , salvo erro um Tenente, que em simultâneo era o piloto do helicanhão, recebi o amável convite para ir com ele no lançamento das nossas tropas, a bordo do canhão que ia fazer a protecção aos outros helis com os grupos de combate.
Aceitei a proposta  e aí vou eu participar voluntariamente nesta experiência "única" como se veio a verificar de alto risco desnecessário. 
Só depois compreendi, que o objectivo do convite seria fazer-me enjoar, este facto segundo a praxe, teria como contrapartida o pagamento de uma grade de cervejas.
Efectuado o lançamento, segue-se o regresso dos helis ao quartel de Alto do Cuito tendo nós  no helicanhão ficado a sobrevoar a chana, e a admirar as cabras de mato que fugiam assustadas.
No helicanhão seguia o tenente, com o respectivo cinto de segurança, um sargento apontador do canhão, devidamente sentado com cinto de segurança colocado. e... pasme-se!!!!,
Por insensatez minha e logicamente também do tenente, eu ia sentado nas calmas, em equilíbrio instável simplesmente, em cima do caixote de munições do canhão, sem cinto nem qualquer tipo de segurança.
Naturalmente que o Tenente não devia ter deixado que aquela situação acontecesse tanto mais que naturalmente a porta do heli, estava aberta para o canhão operar.
Mas ... o pior viria a seguir.!!!
Dá-se então a maluca odisseia para me fazer enjoar. Seguindo o curso de um pequeno rio, afluente do rio Tempué, com o seu leito a serpentear por entre árvores nas margens, o heli começa a seguir o trajecto do rio, com voltas e meias voltas e eu a ver quando embatíamos numa árvore e ali ficávamos. Pura loucura.!!!
Como não resultou, pois eu não enjoei, voltou á chana seguindo quase rente ao solo. Surge entretanto uma cabra de mato que assustada e a mudar frequentemente de direcção, passou a ser acompanhada pelo heli nesse seu aflito  e brusco serpentear.
Nem assim eu enjoei.!!!! Perante esta resistência, o piloto muda de estratégia, e em plena  chana sobe o heli na vertical, com o motor na máxima potência  até uma altura elevada para, uma vez lá no cimo, "tirar motor" do heli, entrando logo de seguida em queda livre no vazio.
Tive a sensação que as minhas entranhas me bateram na garganta, mas refeito do susto e não dando parte de fraco disse-lhe: "Se não enjoei desta nunca mais enjoo".
Alto Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Então o nosso “primo” dirigiu-se finalmente para a pista do quartel e eu ofereci-lhe, seguramente após as 5 horas da tarde, hora sagrada para o pessoal da Força Aérea Sul-africana, não uma cerveja mas um bom wisky velho, sem ter assim de cumprir a praxe da grade de cervejas.
Moral da história: Nós e Eles ,com os nossos vinte e poucos anos, chegávamos a correr riscos desnecessários, só porque a nossa jovem adrenalina assim o sugeria ou permitia.
Depois, os acidentes aconteciam e éramos eventualmente mais umas vítimas da GUERRA .!!!!

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

UMA MEMÓRIA DE 50 ANOS



Cumpriram-se em, 28 de Setembro, 50 anos da minha chegada à Guiné no HC-54 Skymaster 7504.
Guardei para sempre a recordação da abertura da porta de cabine dos passageiros e da baforada de ar quente rançoso e húmido, proveniente de águas paradas e dos muitos rios lodosos existentes no território.
Esta foi a antevisão desagradável do que nos esperava: um clima doentio e que marcaria indelevelmente para sempre as nossas vidas.
Para além de muitos outros de quem não guardo memória, chegaram no mesmo voo os Tenentes José Nico e Rui Balacó.
Com eles convivi na Esquadra de Fiat's até ao fim da comissão. Foram cerca de 22 meses em que interagimos diariamente na Esquadra de Tigres, eu como Mecânico na Linha da frente e eles Pil. Aviadores.


Pragmáticamente todos aceitamos o drama de guerra, irregular, assimétrica e mortífera que enfrentaríamos no futuro imediato, lutando para tentar preservar um legado deixado pelos nossos antepassados.
A guerra na Guiné teve características muito diferentes da que se travava em Angola e Moçambique. A elevada organização da guerrilha e a forma como a sua luta se iniciou, através de acções de combate e não com massacres como em Angola, eram reveladores das dificuldades que as FA iriam ter neste território. O movimento de guerrilheiros contra o qual iríamos lutar, era o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC).
Na Guiné, não só os factores históricos e a hostilidade da geografia e do clima tornaram difícil a actuação das FA, como também as independências da Guiné-Conakry (1958) e do Senegal (1960) tiveram um importante papel na condução da guerra. Estes dois países foram uma importante fonte de apoio aos guerrilheiros do PAIGC, proporcionando-lhe refúgio a Norte, Leste e Sul, onde puderam estabelecer as suas bases e desencadear acções militares . O nível de organização do movimento e o armamento moderno de que dispunha (armas automáticas, morteiros, RPG’s, metralhadoras anti-aéreas) possibilitou aos guerrilheiros evoluírem de tal forma rápida que, em 1965, já tinham estendido a sua actuação a todo o território.
Para piorar a situação militar portuguesa, em termos de apoio aéreo, fundamental para a nossa defesa, devido a pressões exercidas pelos EUA, a FAP foi obrigada a retirar da Guiné os oito F-86F, a principal arma de ataque aéreo de que dispunha. 
Os primeiros Fiat G-91 na BA 12 - foto de Mário Santos

Desde a retirada destes, em finais de Outubro de 1964, e a chegada dos seus substitutos, os novos caças FIAT G-91 R4 adquiridos à Alemanha Ocidental. 
As missões de apoio aéreo próximo às forças no terreno foram entretanto garantidas pelas aeronaves T-6G. Este era um avião que estava longe de possuir o mesmo poder de fogo do anterior F-86F ou do posterior FIAT G-91 R4, o que terá contribuído para que no período de dezoito meses entre a saída de uns e a entrada ao serviço de outros, a guerrilha tenha reforçado a sua presença no terreno, especialmente na região a Sul. A inferioridade dos guerrilheiros na guerra aérea levou a que desde cedo procurassem anular esta vantagem da FAP, recorrendo para tal ao uso de artilharia anti-aérea e mais tarde ao míssil russo Strella AS-7.
No entanto, em minha opinião, terá sido precisamente o cansaço dos militares face a uma guerra sem solução política previsível e o ataque aos seus interesses corporativos de classe, os principais factores que levaram as FA a voltar a conspirar contra o regime, acabando por o derrubar em 1974.
Aqui deixo o meu abraço de grande estima ao General J.Nico e ao Coronel R.Balacó(que felizmente ainda se encontram entre nós) assim como a todos os companheiros de todas as Esquadras e que contribuíram com o seu esforço e as suas vidas para Portugal poder ter orgulho nos seus filhos que lutaram com honra e dignidade para preservar o que nos tinha sido legado!
As fotos não têm grande qualidade, devido às arcaicas câmaras fotográficas, mas são todas genuínas. A foto do Skymaster foi tirada pouco antes do seu abate e posterior desmantelamento, sendo portanto a mais recente e com melhor qualidade.

Por Mário Santos